Logo E-Commerce Brasil

E-commerce sem fricção: as tendências que vão dominar os pagamentos em 2026

Por: Marcelo Bentivoglio

É cofundador e CFO da QI Tech. Líder empresarial inovador, possui ampla experiência multifuncional em diversos setores, incluindo startups, empresas de médio porte e um renomado banco global. Iniciou sua carreira no Goldman Sachs e, em 2014, fundou a Banfox (posteriormente adquirida), uma das pioneiras no financiamento de faturas para PMEs no Brasil. Após a Banfox, cofundou a QI Tech, a primeira SCD (Sociedade de Crédito Direto) aprovada pelo Banco Central do Brasil. Hoje, a QI Tech atende mais de 1.000 grandes clientes com tecnologia de ponta, transaciona bilhões e emite mensalmente mais de 4 bilhões de reais em novos empréstimos.

Ver página do autor

Até 2024, o grande debate do varejo digital era sobre disponibilidade. O lojista precisava aceitar Pix, precisava ter carteira digital, precisava estar no marketplace. Essa fase passou. O jogo de 2026 não é sobre quem aceita mais meios de pagamento, mas sobre quem torna o ato de pagar irrelevante.

Imagem de smartphone com “Pagamento aprovado”, representando Pix Automático, BNPL, Pix Garantido e Tokenização no e-commerce.
Imagem gerada por IA.

Estamos caminhando para o fim do “momento do checkout”. A fricção, aquele instante em que o cliente para, pensa, digita números e aguarda aprovação, está sendo sistematicamente eliminada. O pagamento deixa de ser uma etapa do funil e passa a ser uma camada invisível de infraestrutura.

Para 2026, as tendências que vão mover os ponteiros de conversão e receita não são apenas tecnológicas; são comportamentais. Elas partilham de um princípio único: fluidez na frente, inteligência por trás.

Aqui estão os movimentos que vão ditar as regras do jogo nos próximos meses.

Pix Automático: a revolução da recorrência

Se o Pix mudou o varejo de transação única, o Pix Automático vai reescrever a economia da recorrência. Até hoje, vender assinatura ou serviço mensal no Brasil esbarrava em dois muros: a exclusão de quem não tem limite no cartão de crédito e a ineficiência do boleto bancário, que depende da lembrança de pagamento do cliente.

O Pix Automático derruba ambos. Em 2026, ele deve se consolidar como o motor principal de SaaS, streamings, escolas e clubes de assinatura. A lógica é brutalmente mais eficiente: liquidação imediata para a empresa e fluxo sem atrito para o consumidor.

Não estamos falando apenas de substituir um método por outro. Estamos falando de incluir economicamente mais de 60 milhões de brasileiros que não possuem cartão de crédito ativo, segundo o Banco Central, mas movimentam dinheiro diariamente no Pix.

Para o CFO do varejo, isso significa previsibilidade de caixa e redução drástica da inadimplência técnica.

BNPL: o parcelamento nativo do e-commerce orientado à conversão

O Buy Now, Pay Later já deixou de ser um experimento de fintech para se tornar parte orgânica da jornada de compra digital. Em 2026, ele se consolida como o mecanismo de financiamento nativo do e-commerce: simples, rápido e pensado para aumentar a taxa de conversão. Aqui, o trilho é comercial.

O BNPL funciona especialmente bem em categorias de alto ticket, como eletrônicos, móveis, linha branca e serviços que exigem pagamento inicial parcelado. A lógica é clara: o cliente ganha flexibilidade sem depender de limite de cartão, enquanto o varejista destrava vendas que antes morriam por falta de crédito disponível. Ele opera como extensão natural do funil, e não como uma etapa paralela.

Pix Garantido: reorganizando o parcelamento

O Pix Garantido avança por um caminho diferente. Ele não compete com o BNPL; ele constrói outra avenida para o parcelamento digital. Se o BNPL nasce da lógica do comércio, o Pix Garantido nasce da lógica da infraestrutura financeira.

Ao permitir parcelar dentro do trilho instantâneo do Pix, o mecanismo reorganiza o fluxo de pagamentos, entrega liquidação imediata para o varejista e reduz a dependência do limite do cartão. Esse modelo tende a ganhar força em serviços essenciais, educação, saúde, manutenção doméstica e em qualquer cenário em que previsibilidade de caixa seja crítica.

Também deve se destacar entre consumidores com baixo limite disponível, em que o cartão tradicional nunca foi capaz de sustentar recorrência ou compras de maior valor.

O Pix Garantido resolve um dilema histórico do crédito online: segurança sem lentidão. A análise de risco ocorre em tempo real, diretamente no checkout, sem redirecionamentos ou fricção. Isso aproxima o financiamento do ponto de decisão do cliente e transforma a experiência de compra em algo contínuo, em que o crédito deixa de ser um desvio e volta a ocupar seu lugar natural: os bastidores.

Tokenização e a “identidade única”

A segurança costumava ser sinônimo de barreira. Senhas, tokens SMS, captchas. Em 2026, a segurança vira acelerador graças à tokenização massiva.

As bandeiras e os emissores estão correndo para um cenário no qual o número do cartão de plástico se torna obsoleto. O que trafega na rede é um token criptografado, único para aquela transação e aquele dispositivo. Isso permite o Click to Pay real: o cliente é reconhecido pelo dispositivo, e a compra acontece em um toque.

Para o e-commerce, o impacto é direto na taxa de aprovação. Transações tokenizadas têm taxas de aprovação significativamente maiores porque o banco emissor sabe que aquela credencial é válida e segura. Menos falso-positivo, mais venda.

O consumidor omnichannel não vê canais, vê conveniência

A fronteira entre o “online” e o “físico” já era tênue; em 2026, ela desaparece. O cliente inicia a compra no Instagram, prova na loja física e paga com uma carteira digital (Apple Pay, Google Wallet) que já tem seus dados de entrega salvos.

O desafio aqui não é de marketing, é de infraestrutura financeira. O varejista precisa de um sistema de pagamentos agnóstico, que reconheça esse cliente em qualquer ponto de contato. Se o seu sistema antifraude bloqueia no site um cliente que compra toda semana na loja física, você não tem um sistema de segurança, você tem uma máquina de perder dinheiro.

Antifraude transacional: comportamento supera regra

Fraudes na Black Friday e em datas sazonais nos ensinaram uma lição cara: regras estáticas não funcionam mais. Bloquear quem compra “muito rápido” ou “de madrugada” é punir o bom cliente.

A tendência para 2026 é o uso intensivo de IA para análise comportamental. A “inteligência por trás” não olha apenas se o CPF bate com o cartão. Ela analisa a biometria comportamental: localização, dispositivo e os padrões de navegação.

O objetivo deixa de ser “barrar a fraude” a qualquer custo e passa a ser “aprovar com confiança”. A segurança deixa de ser um gatekeeper para se tornar um viabilizador de receita.

O resumo da ópera

O que veremos em 2026 é o amadurecimento da infraestrutura. Meios de pagamento deixaram de ser commodities ou apenas taxas administrativas para se tornarem estratégias de crescimento.

Para as empresas, a mensagem é clara: competir no varejo digital não significa apenas ter o melhor produto ou o melhor marketing. Significa garantir que, quando o cliente decidir comprar, absolutamente nada fique no caminho dele.

O crédito invisível, a recorrência automática e a segurança tokenizada não são o futuro. São o pré-requisito do presente. Quem continuar tratando pagamento como a “etapa final do carrinho” vai ficar para trás de quem já entendeu que pagamento é, na verdade, o início da fidelização.